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QUÍMICA & MEIO AMBIENTE
A
EVOLUÇÃO DA ATMOSFERA TERRESTRE
A Terra
tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos e era bastante
diferente da Terra que conhecemos hoje. Assim também é
a atmosfera terrestre, que nem sempre apresentou a mesma
composição química. A medida que desvendamos as
grandes transformações químicas que a atmosfera
terrestre vivenciou, procuramos avaliar quais foram as
conseqüências dessas mudanças para a manutenção da
vida na Terra. Assim, podemos aprender muito com a história,
de modo a não cometermos os mesmo erros (ou pelo menos
os protegermos de seus efeitos), os quais ficaram
registrados na crosta do planeta ao longo desses bilhões
de anos.
O
processo mais importante ocorrido na Terra foi o
aparecimento da vida, o que deve ter ocorrido há
aproximadamente 3,5 bilhões de anos. Até então, estima-se
que nosso planeta apresentava uma atmosfera bastante
redutora, com um crosta rica em ferro elementar e
castigada por altas doses de radiação ultra violeta, já
que o Sol era em torno de 40% mais ativo do que é hoje e
também não havia oxigênio suficiente para atuar como
filtro dessa radiação, como ocorre na estratosfera
atual. Dentro dessas características redutoras, conclui-se
que a atmosfera primitiva era rica em hidrogênio, metano
e amônia. Estes dois últimos, em processos fotoquímicos
mediados pela intensa radiação solar, muito
provavelmente terminavam se transformando em nitrogênio
e dióxido de carbono. Conforme esperado, todo oxigênio
disponível tinha um tempo de vida muito curto, acabando
por reagir com uma série de compostos presentes na sua
forma reduzida.
A
termodinâmica e o conceito de vida
Uma
observação mais criteriosa da composição química da
atmosfera terrestre mostra que o nosso planeta é ímpar
quando comparado com nossos vizinhos mais próximos,
Marte e Vênus. Se fosse possível tomar uma amostra de
cada uma das atmosferas desses dois planetas e confiná-las
em um sistema isolado por alguns milhões de anos, iríamos
observar que as suas composições químicas não se
alterariam. Ou seja, sob o ponto de vista termodinâmico,
essas atmosferas estão em equilíbrio, conforme mostram
os dados termodinâmicos presentes na última linha do
quadro 1.
|
Quadro 1: Composição química
e termodinâmica da atmosfera de alguns planetas
do Sistema Solar (%) |
|
Gás |
Vênus |
Marte |
Terra |
Terra* |
|
CO2 |
96,5 |
95 |
0,035 |
98 |
|
N2 |
3,5 |
2,7 |
79 |
1,9 |
|
O2 |
traços |
0,13 |
21 |
traços |
|
Argônio |
traços |
1,6 |
1,0 |
0,1 |
|
DfGm/kJmol-1 |
-365 |
-376 |
-1,8 |
-377 |
|
* Composição
provável antes do aparecimento da vida no
planeta. |
No entanto, se tomarmos uma amostra do ar
que respiramos hoje e procedermos do mesmo modo que
fizemos para as amostras de Marte e Vênus, ou seja,
confiná-la de modo a excluir qualquer interação com
seres vivos, iríamos descobrir que sua composição química
seria drasticamente alterada, e no final teríamos uma
atmosfera muito similar àquela encontrada nesses dois
planetas, conforme mostrado no Quadro 1.
Isso demonstra que a atmosfera terrestre está muito
distante do equilíbrio termodinâmico, o que
intuitivamente é sabido, pois como poderíamos explicar
que em uma atmosfera tão rica em oxigênio (poderoso
oxidante) pudessem coexistir espécies reduzidas tais
como metano, amônia, monóxido de carbono e óxido
nitroso? Em uma análise mais abrangente, poderíamos
dizer que esse quadro único em termos de composição química
da atmosfera da Terra é fruto da vida que se desenvolveu
no planeta há mais de 3,5 bilhões de anos. O oxigênio
que hoje compõe a atmosfera é quase todo produto da
fotossíntese, pois todas as outras fontes fotoquímicas
inorgânicas de produção de oxigênio juntas contribuem
com menos de um bilionésimo do estoque de O2
que respiramos. Assim, os processos biológicos (em
outras palavras, a vida!) produzem não apenas o oxidante
atmosférico mas também os gases reduzidos, gerando um
estado de baixa entropia, mantido pela inesgotável fonte
de energia proveniente da radiação solar.
Essa análise termodinâmica da atmosfera terrestre foi
muito importante na década de 60, quando os EUA e a
extinta União Soviética, no auge do período denominado
"Guerra Fria", estavam interessados na exploração
do espaço e na investigação da possibilidade da existência
de vida extraterrestre.
Imagine uma nave não-tripulada pousando em Marte para
investigar a existência de vida nesse planeta, e que você
fosse o encarregado de idealizar um experimento que
pudesse elucidar essa dúvida. Na realidade, esse cenário
não é de ficção, e realmente ocorreu. Dentre as várias
propostas de experimentos que foram apresentadas (busca
de DNA, detecção de carbono assimétrico etc.), todas
pecavam porque assumiam que a existência da vida seria
caracterizada por indícios com os quais estamos
familiarizados, ou seja, estavam centrados na nossa
concepção do que é vida. No entanto, o pesquisador
inglês James Lovelock (1982) propôs que não seria
necessário ir até estes planetas para verificar se
haveria ou não vida neles, uma vez que em um conceito
muito mais amplo (e válido para todo o Sistema Solar), a
vida poderia ser detectada pela simples observação,
daqui na Terra mesmo, do estado de entropia da atmosfera
alienígena. Dentro dessa concepção química
extremamente abrangente de vida , Marte e Vênus são
hoje tidos como planetas estéreis porque suas atmosferas
estão em equilíbrio termodinâmico. Você já havia
pensado que a química pode fornecer uma das melhores e
mais abrangentes definições do que é a vida?
O aparecimento da vida na Terra
A evolução de vida no nosso planeta pode ser
resgatada através das evidências deixadas na crosta
terrestre (incluindo as calotas polares), basicamente
pela análise geoquímica (especiação química e radio-isotópica)
de rochas e meteoritos, ou pelos fósseis de organismos
que habitaram a Terra além de uma boa dose de
criatividade balizada pelas evidências científicas e
pelo bom senso. O Quadro 2 mostra os principais eventos
que determinaram a evolução da vida, mostrando a época
em que ocorreram e as evidências usadas para Inferi-los.
| Quadro 2:
Evolução da vida na Terra |
|
Tempo (106 anos) |
Evidência |
% de oxigênio na atmosfera* |
|
400 |
Peixes grandes, primeiras plantas
terrestres |
100 |
|
550 |
Explosão da fauna cambriana |
10 |
|
1.400 |
Primeiras células eucariotes: células
com diâmetro maior; evidência de mitose |
> 1 |
|
2.000 |
Cianofíceas tolerantes ao oxigênio,
com carapaça de proteção; fotossíntese |
1 |
|
2.800 |
Cadeias de filamentos - organismos
que se parecem com as cianofíceas atuais;
predominância da espécie Fe(II) em rochas;
fermentação. |
< 0,01 |
|
3.800 |
Rochas com empobrecimento de 13C.
Possível atividade biológica. |
< 0,01 |
* porcentagem tomando como base o teor de
oxigênio na atmosfera atual.
As
rochas mais antigas mostrando provável evidência de
vida foram encontradas na Groelândia e são sedimentos
carbonáticos com 3,8 bilhões de anos . Antes disso,
acredita-se que a crosta terrestre era tão bombardeada
por meteoritos que a vida seria improvável. Nessas
rochas já se verifica um desbalanço isotópico, ou
seja, o empobrecimento de 13C em relação ao 12C,
o que geralmente é indicativo de atividade biológica.
Em rochas oriundas da Austrália, com idade em torno de 2,8
bilhões de anos, foram encontradas cadeias de filamentos
que muito se assemelham às cianofíceas filamentosas (algas
azuladas) de hoje. No entanto, os primeiros fósseis que
realmente mostram organismos multicelulares são
oriundos do Lago Superior, na América do Norte, e têm 2
bilhões de anos. Nesses fósseis foram encontradas as
primeiras evidências de mecanismos de proteção ao oxigênio
e à fotooxidação em cianofíceas.
Uma análise centrada nas mudanças químicas que
acompanharam essa evolução está apresentada no Quadro
2, e nos mostra que o período mais crítico vivido pela
nossa atmosfera foi há aproximadamente dois bilhões de
anos, quando os organismos passaram a realizar a fotossíntese.
É sabido que para gerar uma nova célula um organismo
necessita de matéria e energia. Devido às características
redutoras da nossa atmosfera primitiva, a biomassa era
gerada através da fermentação, processo que ocorre
também nos dias atuais (produção do álcool, do vinho
e etc.). No entanto, mesmo nesse ambiente fortemente
redutor, organismos fotossintéticos começaram a
aparecer há dois bilhoes de anos, o que a princípio nos
parece uma tentativa de suicídio coletivo. Na fotossíntese,
a biomassa é produzida por meio da redução do CO2
em presença de água e luz solar, conforme mostrada na
equação (1a):
|
nCO2 |
+ |
nH2O |
® |
{CH2O}n |
+ |
nO2 |
(1)
|
Sabendo-se que o oxigênio é um
agente oxidante muito poderoso (basta cortar uma maçã e
deixá-la exposta ao ar por poucos minutos e você verá
o quanto nossa atmosfera é oxidante) e que os organismos
que habitavam a Terra não poderiam sobreviver em uma
atmosfera rica em O2, uma das perguntas que
normalmente se faz é: por que apareceram os organismos
fotossintéticos? A explicação mais plausível é que
a fotossíntese fornece 16 vezes mais energia aos
organismos do que a fermentação. Desse modo, os
organismos agora tinham um ganho energético muito
atrativo, mas um preço muito alto a pagar: a toxidade de
um dos produtos da fotossíntese, o oxigênio. Assim, os
organismos tinham que se proteger desse agente até então
virtualmente inexistente na atmosfera, seja pela adaptação
bioquímica de seus organismos, seja evitando a exposição
ao mesmo. Ou ambos!
Vamos voltar a imaginar a nossa atmosfera há dois bilhões
de anos, onde o oxigênio começa a se formar fruto da
fotossíntese. Sabendo que a radiação ultra violeta que
atingia a crosta terrestre era intensa e muito energética,
o excesso de oxigênio era fotoquimicamente transformado
em ozônio, de acordo com as reações (2) e (3):
|
O2 |
+ |
hv |
® |
O |
+ |
O |
|
(2) |
|
|
|
O* |
+ |
O2 |
M |
® |
O3 |
+ |
M |
|
(3) |
|
Fruto destas reações químicas, a nossa
atmosfera deve ter se transformado em um ambiente
duplamente oxidante, pois além do oxigênio, agora também
havia ozônio na baixa troposfera, tal qual o processo químico
que ocorre hoje na nossa estratosfera, a mais de 15 km de
altura, e que nos protege das radiações ultra violetas
perniciosas. Nesse ambiente altamente tóxico para os
organismos fermentativos e facultativos, só restava
buscar a proteção em um local: embaixo d'água, nos
oceanos, onde o ozônio é pouco solúvel e a radiação
ultra violeta penetra apenas nos primeiros centímetros.
Por mais 500 milhões de anos os organismos viveram
evitando o ambiente oxidante, adaptando-se
bioquimicamente a essa nova realidade através da produção
de enzimas protetoras de espécies altamente reativas
como os radicais oxigenados. Enquanto isso, a concentração
do oxigênio aumentava na troposfera, e com isso a camada
de ozônio ia ficando cada vez mais elevada, distante da
crosta terrestre. Finalmente, os organismos hoje ditos
aeróbios foram cada vez mais se adaptando ao aumento da
concentração do oxigênio na atmosfera, até que
nestes últimos 500 milhões de anos eles saíram da água
para povoar a terra seca. Resumidamente, foram necessários
mais de um bilhão de anos pra que esses organismos (e
muito mais recentemente o homem) se adaptassem ao maior
impacto ambiental que a Terra já vivenciou, ou seja, a
mudança de uma atmosfera redutora para altamente
oxidante como esta em que vivemos nos dias atuais,
contendo em torno de 21% de oxigênio.
As lições a serem aprendidas
As mudanças químicas que ocorreram na atmosfera
terrestre nos ensinam uma grande lição:
independentemente da complexidade bioquímica dos
organismos, do número de indivíduos e do seu
posicionamento dentro da cadeia alimentar, é necessário
um tempo muito longo para que haja a perfeita adaptação
de qualquer espécie via às novas condições ambientais.
O oxigênio levou mais de 1,5 bilhão de anos para sair
de uma concentração de traços e atingir os atuais 21%.
No entanto, parece que os homens não estão muito
atentos ao fato de que nestes últimos 150 anos houve uma
mudança bastante apreciável na concentração de alguns
gases minoritários presentes na nossa atmosfera. O dióxido
de carbono vem crescendo a uma taxa de 0,4% ao ano e o
metano a 1% ao ano, enquanto os CFC's (clorofluorcarbonetos) crescem a uma assustadora taxa de 5% ao ano,
quadruplicando sua concentração média na atmosfera nas
últimas quatro décadas. Todos estes gases, ainda que
minoritários, têm uma função muito importante na química
da atmosfera, pois alguns são gases causadores do efeito
estufa, outros destroem a camada de ozônio e alguns dos
CFCs apresentam ambas propriedades com altíssima
intensidade. Cabe lembrar que a Terra sempre foi
beneficiada pelo efeito estufa, devido à presença de
vapor d'água e CO2 na troposfera. Sem o
efeito estufa, a temperatura média na superfície do
globo ficaria abaixo de -15 °C, nosso planeta seria uma
esfera rica em água no estado sólido e certamente não
propícia ao aparecimento de vida pela falta de um fluido
de escoamento. Ou seja, o efeito estufa bem dosado é benéfico
e essencial para a manutenção da vida, mas um
aquecimento descontrolado do planeta traria conseqüências
funestas para o mesmo. Portanto, nossa preocupação com
as mudanças químicas que ocorrem na atmosfera devem ser
centradas não nos gases majoritários mas principalmente
naqueles minoritários que estão crescendo a uma
velocidade tão elevada que, tudo indica, não teremos
tempo de nos adaptar a uma nova situação, caso esse
aumento venha a alterar o nosso clima ou intensidade da
radiação ultra-violeta que chega até a crosta
terrestre. E o mais importante é que na questão
ambiental a precaução é o melhor remédio, pois grande
parte das mudanças químicas que ocorrem na atmosfera se
não são irreversíveis, levam muito mais tempo para
serem remediadas do que se fossem prevenidas. Resumindo,
em qualquer assunto ligado à preservação ambiental,
prevenir é sempre melhor que remediar.
Wilson
F. Jardim, professor titular do Departamento de Química
Analítica do IQ-UNICAMP